O último show dos Los Hermanos em que estive, antes de 2009, foi no Teatro Guaíra, em novembro de 2006, junto com o Mombojó, em um projeto cultural do Banco do Brasil. Tudo lindo, público fervendo, levantando e dançando nos corredores, fugindo a todos os padrões das apresentações do lugar. Alguns meses depois, em abril de 2007, eles fizeram o último show na Fundição Progresso, no Rio, antes do chamado “hiato” que a banda decidiu colocar em prática.
Quando começaram as primeiras notícias sobre o show do Radiohead no Brasil, com abertura dos hermanos, não tive a menor dúvida que estaria lá. Não importava o valor do ingresso, coisa que geralmente levo muito em consideração ao pensar no custo-benefício do “ir à São Paulo-gastar-comer-gastar-show-gastar”.
Lembro que tomei conhecimento deles (após o momento “Ana Julia”) durante meu primeiro ano de faculdade, com alguns veteranos que trabalhavam no laboratório de fotografia. Ouvi uma das meninas dizer: “nossa, você pre-ci-sa escutar esses caras. No último show, o Santana até chorou…” (Santana no caso, é um cara alto, grande, piadista e que além de irritação e humor negro, esboça pouco momentos de sentimentalismo). Fui entender isso depois, ao perceber como aquela banda arrastava um monte de jovens a cantar nos shows em catarse coletiva cada uma daquelas letras. Vendo isso, sempre gostei de pensar e achar que eles faziam sucesso por cumprirem aquilo que eu considero muito importante em uma banda: o diálogo. Ela tem que fazer sentido para pelo menos um grupo de pessoas, e nesse caso, eu acredito que fazia pra toda uma geração que não anda sabendo muito bem como lidar com o “sentir”. Tudo isso bem recheado de uma sensibilidade um tanto quanto bem pontuada.
No dia do “Just a Fest” era 18h30 eu e mais algumas pessoas tão fãs quanto eu, estavam dentro de um carro parado em um engarrafamento, procurando vagas a muitos metros de distância do lugar. Desesperados, paramos em uma vaga meio louca e saímos correndo pelas muitas quadras que faltavam pra chegar no lugar, atravessando ruas loucamente, procurando o portão de entrada, dividindo o grupo por causa dos ingressos (“a gente se encontra lá dentro”), empurra-empurra, o show já rolando, a gente ouvindo lá de fora, se moendo em ansiedade e cantando junto, até finalmente chegar no meio do público e se enfiar pra ficar o mais perto possível. A coisa era tanta que eu nem sabia direito o que fazer com as minhas mãos, com a capa de chuva que eu tinha comprado e não tava chovendo, se cantava ou apenas olhava o grupo lá longe…
O show não acabou sendo tãaaao emocionante como todo mundo esperava, mas deu pra cantar junto, em meio à catarse, só pra matar aquele gostinho de saudades doída. Mas a sensação foi que todo mundo teve ali, a certeza que aquela fase tinha acabado. As músicas que teríamos deles eram aquelas, tudo que nos ajudou a entender melhor sobre nossos sentimentos estava ali, a emoção de ver um show deles estava acontecendo pela última vez e assim, seguiríamos a diante, ao menos com a certeza de que ainda tínhamos (e sempre tivemos) Radiohead pra fazer a nossa IMENSA alegria. (sem palavras pra esse show…)
E por que eu to falando disso agora? O show foi em março, eu até esbocei um texto sobre ele, mas nem quis publicar. Mas é que depois de muito tempo, coloquei Los Hermanos hoje de manhã pra trabalhar e lembrei de muita coisa, do tanto de coisas que eles me fazem lembrar. O fim louco de adolescência, dias de sol na praia perfeitos pra andar de bicicleta escutando os caras e pensar em muita coisa, o bloco de carnaval em Santa Teresa, no Rio, as diversas vezes de compartilhar momentos bons e ruins com os amigos ou simplesmente cantar bem alto dirigindo… e lembrar de tudo isso e pensar com felicidade sobre o meu passado, tanto sobre as coisas boas e ruins, sabendo hoje o motivo e as vantagens de cada uma delas, é reconfortante. Perceber, principalmente, que não estou passando correndo pela minha juventude e pela minha vida por causa de frustrações. Acredito que não corro o menor perigo de me tornar uma adulta chata, velha, amarga que não suporta o peso do passado, de seus erros e do que não deu certo. Obrigada Los Hermanos pela lembrança, he.
Estava mesmo precisando lembrar como eu cheguei onde estou agora e das coisas que me tornaram o que sou. Como a Paula Ponta diz que é a minha cara dizer: eu sou a melhor coisa que poderia ter me acontecido. Daqui eu posso ir pra onde eu quiser, tenho tudo para isso.
PS: Esse texto é para minha prima que está lá longe agora, mas ao ler esse texto vai entender tudo sobre ele e saberá o que ela pode esperar quando me receber em 2010 lá na Itália. Vamos poder realizar todas as coisas lindas que nos propomos a fazer e conhecer juntas, escutado Los Hermanos e andando de bicicleta. =)