Lembro do meu primeiro dia de aula no Anjo da Guarda, em que saía da pré-escola e ia para a primeira série do primário. Lembro das primeiras recomendações e avisos de mudança da professora: chamá-la pelo nome, não mais de tia, e que o dia do brinquedo não existia mais.
Lembro de quando minha mãe ficou grávida do meu irmão e eu soube que deixaria de ser a única dentro daquela casa.
Lembro de quando eu tive que passar do turno da tarde para o turno da manhã, na metade da quarta série. Turma nova, horários novos, novos amigos.
Lembro de quando meus pais compraram uma casa nova, que eu não queria morar porque era perto do cemitério.
Lembro de quando tive que sair do Anjo justo no último ano, no último semestre que teria dentro da escola que estudei durante 8 anos.
Lembro ainda dos primeiros dias na escola nova, em que a vida e a realidade eram completamente diferentes.
Lembro dos primeiros meses no Positivo, em que eu odiava acordar todos os dias pra ir para aquele lugar.
Lembro dos últimos dias no ano do terceirão, em que a Pollyana, minha amiga mais próxima naquela época, passou em Balneário.Lembro da gente no telefone no dia de natal, chorando, porque sabíamos que uma fase tinha acabado.
Lembro do primeiro dia dentro da universidade, em que não quis participar do trote, tendo que no ano seguinte, passar para o período da noite e ver tudo mudando de novo na minha vida.
Lembro do dia da minha banca, o último dever com a faculdade. Lembro da formatura, do choro durante a colação, de saber que ali, mais uma vez, mais uma fase da minha vida tinha acabado.
Lembro do dia em que saí da casa da minha mãe e da minha primeira noite dormindo sozinha no meu apartamento. Lembro também do dia em que voltei pra casa dela, um ano depois, só querendo colo.
Lembro de um dia, logo após o carnaval em que eu escutei uma pergunta e dei a minha resposta. Assim como muito tempo depois, me lembro do enjôo que eu sentia ao voltar de viagem por saber que mais uma vez tudo já tinha mudado…
Ontem, minha psicóloga me avisou que em 2010 vai embora de Curitiba, significando que mais uma vez, eu vou ter que mudar tudo de novo. Enquanto eu chorava compulsivamente, ela me dizia que sabia o que isso significava e o tamanho do buraco na minha já atual falta de chão. Mas como ela sempre faz, ela terminou a conversa com uma pergunta: “Apesar de tudo isso, da carga pesada e do sofrimento, você sabe que isso tudo tem um propósito, não é?”
…
A entrada na primeira série trouxe vida nova, uma escola que faria parte de mim e da minha formação por muito tempo.
Apesar do ciúmes, eu lembro da primeira noite do meu irmão na minha casa, em que eu não conseguia parar de olhar pra ele, para aquela coisa tão pequena e bonitinha, todo vestido de branco, inofensivo e tão frágil.
Foi na mudança para a quarta série que eu conheci as pessoas mais especiais da minha vida e que estão aqui até hoje.
Hoje, cada vez que a minha mãe diz que quer vender a casa e ir para um apartamento eu desejo com todas as minhas forças que isso não aconteça.
Mudando para outra escola eu pude conhecer pessoas tão diferentes de mim e da realidade que eu vivia, podendo aprender um pouco sobre a vida real, além do meu mundinho perfeito e cor de rosa.
No Positivo eu conheci outra parte de pessoas mais especiais da minha vida, que também estão aqui, cheia de história pra contar desse tempo que estamos juntas.
O fim do terceirão trouxe uma fase em que eu aprendi muito, me dei conta de coisas que eu jamais tinha pensado.
Quando passei para a noite durante a faculdade tudo ficou claro, inclusive eu mesma, em que conheci ainda outra parte de pessoas lindas e que também, estão aqui ainda.
Com o fim da faculdade veio a maturidade, os empregos novos, o aprendizado e a independência financeira.
A mudança pro apartamento fez com que uma parte de mim que ainda faltava, fosse construída e por mim mesma. Assim, como a volta pra casa da minha mãe fez com que o que nos separou pudesse fazer a gente ficar juntas e em paz.
Mesmo sabendo que ano que vem minha terapia seria interrompida de qualquer forma quando eu for viajar, (e tudo vai mudar de novo, absurdamente…) é difícil. Eu detesto mudanças, detesto ter que me desapegar do passado, detesto ter que repensar, ver de outra forma. Detesto tudo isso. Mesmo que sempre esteja querendo coisas novas na minha vida, acho que são as mudançs bruscas que me machucam. Mas assim como durante toda a vida, isso aconteceu de novo. Então eu respondi pra ela: “Sim, eu sei qual é o propósito disso tudo e estou bem com isso”.
Porque eu sei que, como uma amiga me disse esses dias, o que vai, liberta e o que for pra ser, vigora.
