Música e cinema são as duas expressões artísticas que mais tocam fundo em minha inspiração. Os dois são capazes de dar vazão a sentimentos, orientá-los ou simplesmente questioná-los. Existe outra pessoa no mundo que sente, sentiu ou somente é capaz de compreender exatamente aquilo que tem dentro de você e conseguiu colocar em palavras, ritmos e imagens, expondo ao mundo o que de mais íntimo existe.
Desde menina, quando meu pai escutava Cartola em vinil, eu já me deixava envolver pela poesia do músico e agora, com um pouco mais de maturidade, sinto-me mais apaixonada pelo samba de origem feito por ele. Mas era um sentimento desses descrito acima, íntimo, meio sem explicação. Uma emoção que vinha e passava logo quando escutava algum dos meus “rockinhos”. Mas de repente, vem algo que consegue despertar em mim mesma essa explicação. Se é que sentimento tem algum tipo de explicação.
O documentário biográfico “Cartola, música para ouvir e olhar” foi o responsável por esse turbilhão de emoções em plena quinta-feira à noite. Esse título passou despercebido quando loquei o filme, meio na pressa e só ao terminar de assistir pude concordar plenamente. Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, roteiristas e diretores do filme utilizaram do documentário testemunhal para mostrar os feitos do compositor. Mas, felizmente, eles não se prenderam a essas regras rígidas que definem e dividem em categorias os trabalhos cinematográficos.
Muitos que assistirem ao filme, podem pensar que sobre Cartola. Mas, se você for mais além, vai perceber que se trata de um trabalho completo e pontualmente sensível sobre a história do samba de raiz e sobre o nosso país. Uma pesquisa impecável que utiliza ainda de intertextualidade para situar o expectador e transformar uma simples biografia em um belo modo de contar história.
Textos, imagens e principalmente música são utilizados para que as rupturas dessa narrativa não fiquem expostas, por isso usa-se uma linguagem mais eleborada e sutil. O acervo de fotos e relatos são misturados com outros grandes nomes da cultura popular brasileira, identificando a época da narrativa e buscando um diálogo constante com o espectador, sem que o mesmo nem sempre se dê conta.
E ao final, extasiada, pude sentir o porquê dessa admiração toda. O filme conseguiu atingir o ponto em que ficam memórias de minha infância, lembranças de sambas feitos na casa da família de meu avô e mesmo de coisas que eu não passei, mas que me identificam, porque falam do país onde eu nasci e vivo. De músicas simples, de gente simples que fala de um cotidiano que eu não vivo, mas desde sempre sei da existência, porque são parte da minha cultura.
Uma ótima aula principalmente para a juventude alienada que vive hoje a fase “emo” americanizada que mal sabem o que passa ou se passou em seu próprio país.