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Percepção Seletiva

27 de outubro de 2007

Um mês antes da estréia oficial, o filme Tropa de Elite, dirigido pelo documentarista José Padilha, era assunto nos mais diversos meios de comunicação do país. Entrou em pauta a pirataria, envolvendo inclusive o ministro da cultura, Gilberto Gil que fez uma mostra do filme, versão pirata, em sua residência. Como não poderia deixar de estar presente , o crime organizado e suas últimas aparições também entraram na roda dos questionamentos, com direito à carta de Luciano Huck indignado com o roubo de seu relógio, perguntando pelo paradeiro do “Capitão Nascimento”, personagem-narrador do filme. E como foco principal, a polícia, demonstrada detalhadamente no enredo.

Quatro dias após a estréia, terça feira, onze horas da noite, todas as sessões do filme lotavam pelo menos quarenta minutos antes, mesmo em cinemas que tinham as sessões simultâneas em duas salas. José Padilha estava em todos os tipos de programa de entrevista em diversos canais de televisão. E mais uma vez, após a repercussão imensa do filme Cidade de Deus, que relatava pela primeira vez o cotidiano violento do tráfico de drogas nas favelas cariocas, o país parou para “se” discutir.

Tropa de Elite ao contrário de CDD não tem uma fotografia publicitária, que encanta a todos os tipos de olhos, mas sim crua e suja. Os atores não são tão amadores quanto no primeiro, muito pelo contrário, traz no papel principal o novo “namoradinho” do Brasil, Wagner Moura.  Mas mesmo com esses poréns e, ainda, a pirataria como igrediente principal, conseguiu (e permanece conseguindo) lotar as salas de cinema de todo o país e colocar a sociedade em discussão. Como e por quê?

Cada vez que aparece nos meios de comunicação algo sobre a tal “Guerra particular”, como é chamada a guerra do tráfico no documentário “Notícias de uma guerra particular” dirigido por João Moreira Salles e Katia Lund, a sociedade pára, fica indignada com os “novos” fatos relatados e discute por alguns dias, semanas até, os caminhos a seguir e se manifesta horrorizada se questionando para onde está indo. Mas passado o tempo, tudo volta ao normal e passa-se a olhar para a televisão hipnotizados com a corrupção no planalto, esquecendo da corrupção que acontece aqui ao lado, nas ruas onde milhares de camelôs vendem com liberdade inúmeros itens de pirataria. Ou então, após assistir ao documentário “Falcão, meninos do tráfico”, dirigido pelo rapper MV Bill, em horário nobre, fica-se perplexo com as crianças que morrem todos os dias nas favelas do país. Mas após levar seus filhos, em segurança à escola a sensação horripilante passa.

José Padilha foi chamado de “fascista de direita” com ” Tropa”, após ser dito  “radical de esquerda” com seu último filme “Ônibus 174″. Nas salas de cinema, pessoas aplaudiram e riram nas cenas de tortura dos traficantes. Jovens usaram as falas do filme pra fazer piadas. Alguns resolveram que queriam ser do BOPE, o próximo Capitão Nascimento. Mas o chamado “asfalto” não sentiu a culpa e continuou se sentindo a vítima de tudo isso: a tal guerra particular. Pior, se justifica no filme com a tortura, criando a lei da selva para fora dos portões de sua casa, esperando pela guerra que já acontece, sem interesse nenhum em ter uma polícia não corrupta e não violenta. Assiste ao DVD pirata, esperando que o filme pelo menos concorra em Cannes e seja notícia fora do Brasil.

Tropa de Elite não fala do Batalhão de Operaçõs Especiais, muito menos do tráfico de drogas. Os tapas que o Capitão Nascimento distribui não são exatamente nos traficantes. Mas então, do que tudo isso trata? O que ele propõe? A quem ele se dirige?

Alguém se habilita a responder?

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2 Comentários
  1. bellenda permalink

    Não me habilito. A resposta é mais complexa do que nós possamos imaginar. tudo parece sem sáida mesmo. Parece que somente o grande caos para mudar tudo. Mas já não estamos no meio dele? O que fazer?

    Beijos

  2. Guilherme permalink

    Belo post.

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