Arquivo para Julho, 2009

31
Jul
09

Lei da selva

Aqui no setor que eu trabalho temos 6 mulheres na revista e 3 na agência de publicidade. Final de expediente, leitura do Ego e afins, eis que surge a eterna defesa: “Ah, eu sou muito mais Jeniffer Aniston”. Todas em unanimidade concordaram argumentando que a Angelina não passa uma coisa boa, que o que ela fez foi sacanagem e whatever…

Eu também faço parte desse time pró-Janiffertraídadasilva. Mas me peguei pensando o quanto nós mulheres temos certas idéias meio machistas pré-concebidas e a partir disso determinamos nosso comportamento. Ninguém gosta da Angelina Jolie porque ela sempre exerceu aquele papel de devoradora de homens, porque ela conquistou o Brad Pitt quando ele ainda estava casado, porque ela é toda esquisita, neurótica, louca e estranhamente bonita. A Jeniffer Aniston é a eterna Rachel de Friends, ela casou com bonitão no alto de um morro, com vista pro mar, viveu um romance, é bonita do tipo certinha, além de sempre interpretar o papel de vítima forever quando se fala nessa história… óbvio que todas nós nos identificamos logo com ela, nos associamos na dor junto com ela, assumimos sua briga, afinal de contas, ela foi traída. Não colocamos a culpa no Brad e sabe o porquê? Porque ele é considerado o cara mais bonito do mundo, porque ele além de tudo é um super pai, porque ele é politicamente correto, porque ele fez campanha pro Obama…sabe? Onde é que o pessoal acha espaço pra culpá-lo pela traição?

Pensando nisso e trazendo pra realidade, não é muito difícil achar histórias assim logo aqui do lado, em que a culpa é da mulher-tentação que provocou a traição, não do rapaz comprometido que fez a cagada consciente. E por quê minha gente? Porque por mais modernas e feministas que tentemos ser, ainda estamos extremamente arraigadas em valores machistas que nos dizem que é da natureza do homem trair, que é óbvio que ele não ia resistir uma mulher como aquela ali dando sopa, que é perdoável… Nos identificarmos com a coitadinha da história e enxergar a outra como um tubarão esperto é tão natural quanto perdoar o namorado/marido e continuar odiando a tal da “vadia”. Não culpo ninguém por sentir e fazer assim, muito pelo contrário. É exatamente assim que rola e eu sei.

Acredito hoje que apesar dessa característica machista nesse tipo de história, nós mulheres sabemos que no fundo, no fundo, todas estão competindo entre si e que são capazes de qualquer coisa quando querem atingir um objetivo. Se precisar pisar, fingir, manipular, gritar, a gente faz e ainda mais forte, se a concorrente for outra mulher. Não dizem por aí que mulher se arruma para outras mulheres? (Podem negar as mais afoitas e feministas, não ligo, pra mim, tudo discursinho fácil). É por isso que a gente reconhece de longe quando uma mulher foi mal caráter, quando ela fez com maldade no coração, sem dó nem piedade. Percebemos logo pelo simples fato de sabermos que faríamos exatamente igual. O que nos diferencia é a capacidade de fazer isso de modo mais silencioso ou não. Existem aquelas que ainda não fazem coisa nenhuma, só sonham em fazer porque não tem coragem. Mas também é só até o dia em que essa força acaba sendo maior que elas próprias e sua covardia.

No fim das contas, eu acho que se tratando de competição, nenhuma de nós mulheres vale alguma coisa. No frigir dos ovos, valemos muito menos que esses homens que se acham muitos donos da malandragem, quando na verdade são apenas objeto de uma força psicológica e natural, completamente feminina.

Aquela coisa… os defeitos que a gente mais odeia em nossos inimigos, provavelmente são os nossos piores e é assim que nos vemos no espelho e ficamos putos da cara. O jeito mais facil é quebrar esse espelho, não é?

31
Jul
09

e depois da graduação…

Cena 1

Aula de ética das turmas de pós graduação em comunicação audivisual e comunicação, cultura e arte. O professor pergunta:

- Por que esse período é chamado de pós modernismo e até mesmo, por alguns autores, de hiper modernismo? Resposta da aluna que sempre possui comentários enriquecedores:

- Ah professor, porque hoje em dia é tudo muuuuuito moderno né? Muito moderno…

Cena 2

Ainda, nos primeiros dias de aula, a professora faz uma revisão sobre os movimentos de vanguarda do cinema. No intervalo uma aluna comenta:

- Nossa, nunca tinha ouvido falar nesse tal de DEdaísmo.

Cada aluno investe mensalmente R$420,00 no curso, que como o nome diz, é PÓS-graduação, o que leva a concluir que os alunos participantes já estiveram na universidade, já tiveram aula de ética antes, já estudaram o pós-modernismo e os movimentos de vanguarda.

Ou não, né gente?

23
Jul
09

Segredinhos publicáveis

Hoje li uma chamada com uma afirmação de Brad Pitt:

“Todos na internet mentem”

Verdade.

Não é preciso dar uma passeada muito longa pela net para logo perceber isso. Já comentei aqui que o princípio de tudo é quando a maioria das pessoas que escrevem não se dão por satisfeitas enquanto não conseguem um estilo próprio, invertendo frases, sentidos e tentativas de verdade. Dentro disso, existe ainda a fixação de alguns pelo português correto, esquema professor. Engraçado, tirando os textos técnicos ou quase técnicos, nunca li nada de grandes escritores sobre essa mediocridade linguística que existe por aí. Talvez seja porque eles não precisam falar que sabem né? Tranquilimente eles apenas escrevem e ainda, enxergam que escrever com todos as crases corretas, não é algo a ser discutido. Quem sabe, cumpre apenas uma obrigação. Pulando essa parte, vamos aos sentidos.

Todo mundo gosta da poesia da vida. De dissertar simplificadamente sobre as linhas da cidade, do cotidiano hostil e das peculiaridades inerentes à todas metropoles do mundo. Fazendo isso, é facil se sentir um pouco mais sensível, observador e destacado de um lugar em que todo mundo corre, pouco observa, pouco lê ou simplesmente não reflete. Fuga óbvia, mas se não o fizessem, a cidade continuaria a existir? Não essas cidades onde se escuta com atenção o barulho das xícaras de café dentro dos cafézinhos ou então, o uso de fones de ouvido pelos que esperam nos pontos de ônibus, não é?

Mas essa fuga, com os pontos e vírgulas utilizados para dar ênfase à melancolia textual, demonstra que todos nós aqui na internet podemos ser aquilo que gostaríamos de ser. Escrevemos sobre e para os outros, sempre pensando no outro. Deixamos recados em nossos posts. Discorremos facilmente sobre comportamentos alheios, julgando o mal que nos fizeram, nos deixando nessa miséria de vida. Escolhemos temas polêmicos para discordar. Exaltamos padrões de conduta para justificar o que sentimos e provarmos que seguimos isso à risca, humanos afinal. Justificativas, justificativas…

A cada frase, linha e palavra, não me ofendo e nem me indigno. Você sim? Todo mundo sabe que a mentira diverte muito mais e a internet é o próprio parque de diversões. Até porque todo mundo tá fugindo, cada qual em seu passo. Uns fogem com a sensibilidade forjada, outros com o uso de palavras, justificando para si mesmo o uso delas, avaliando o próprio comportamente e já, se condenando. Eu me convenço, escrevo um texto bonito, pontuado com muitos clichês sobre caráter, amizade, amor, sentimentos…e no fundo tudo que eu quero é apontar minha culpa.

Aqui você não sabe quem vai ler, mas espera que recados sejam dados, estranhos se apaixonem por suas palavras e consumam tudo que você escreve. Conhecidos entendam o que você sente e inimizades acreditem que sua consciência é tranquila, por mais que todos os dias você tenha que explicar um pouco do que acontece à sua volta. Por mais que essa volta não seja muito grande. He.

Vamos blogar, vamos blogar, que além de ser o homem mais bonito e charmoso do mundo, o cara é sincero pra caramba e além disso, mentiras sinceras me interessam, não é?

02
Jul
09

Cosminho e Damião.

Mayara, 20 anos

“Tinha um vizinho meu, de uns 8 anos, bem estranhinho. Vivia no mundo dele, sempre sozinho, olhando pro chão e brincando sozinho. Um dia resolvi ir lá, trocar uma idéia.

Mayara – oi.

Léo – oi.

Mayara – Por que você ta aí, sozinho?

Léo – Mas eu não to sozinho.

Mayara – Hmmmm. Não? E com quem você tá, então? (o parquinho vazio)

Léo – (em tom de deboche) Com os meus amigos.

Mayara – Hmmm. E onde eles estão?

Léo – (aumenta o tom de deboche) Eles são imaginários, né? (der)

Mayara – Aaaaaah. E quais os nomes deles?

Léo – Bom, são três né? Mas só dois deles estão aqui, o outro ta lá em casa. Mas um deles é o Reginaldo, o outro o Confeti e tem também o Bacon. Mas o Reginaldo ta lá em casa vendo TV.

Mayara conclui que realmente, ela tinha sido boba. Eram apenas 3 balanços, como podiam estar os 4 reunidos ali? Der.

Agora eu penso. Tudo bem a criança ter amigo imaginário. Tudo bem os amigos se chamarem Confeti e Bacon, é plausível. Agora de onde ele foi de Bacon pro Reginaldo? Carlos, Marcelo, Pedro, não? Não, Reginaldo.

Cena 2

Bernardo, 2 anos, que qualifica as pessoas com o polegar pra baixo ou pra cima, olha pra mãe pelada e consciente do próprio pipi pergunta:

“Cadê o pinto da mãe?”

Cena 3

Sayonara, que faz transporte escolar, resolve levar 25 crianças ao cinema ver um filminho 3D. No meio do filme, chega uma das criaturinhas e diz pra ela:

“Tia Sayo, eu não quero mais ver com esse óclinhos”

- Mas por queeeeeê?

- Ah tia, eu tô vendo até o cuspe do monstro.

Esses mini gentes…como diz a própria Mayara, crianças ainda não são bem formadinhas né? São bichinhos aprendendo a ser gente, pecadinho. A própria Mayara quando era pequena resolveu pegar sua mochila da Minnie, colocou duas calcinhas e uma Trakinas e foi embora de casa. Deu uma volta na quadra e voltou pra casa, porque não tinha todo o necessário, né?