Há quatro anos, eu entrava em um ambiente que me trouxe os mais diversos tipos de sentimentos e sensações dessa vida. Não posso dizer que tudo aquilo era tão estranho pra mim. Desde pequena, sentia que já conhecia aquele universo, mas associava-o ao meu medo, instaurado talvez pelo preconceito e ignorância existente. Não gostava de pronunciar aqueles nomes, tinha certeza que ao fazer isso, podia ter problemas. Entrei lá cheia de medo, insegura, encolhida, rezando a Deus para que saísse de lá ilesa. A cada minuto que passava minha cabeça se entupia de dúvidas. Mas resolvi voltar na semana seguinte, na seguinte e na seguinte, até que se passou um ano e lá estava eu, sem medo nenhum, morrendo de vontade de estar cada vez mais lá dentro, já sabendo cantar todas as “músicas” na ponta da língua e entendendo que tudo aquilo que eu tinha medo não fazia o menor sentido. Hoje penso que muito pelo contrário, ali minha vida começava a ter um sentido muito maior.
Há quatro anos, eu conheci a Umbanda. Meu medo de dizer a palavra “Exu”, ou o desespero de pensar em alguma pomba-gira, passou. Hoje, eu peço todos os dias que eles me acompanhem, que estejam do meu lado guardando meu caminho. (não é à toa que a minha escolha de padrinho e de pai de santo, foi diretamente influencida pelos exus que trabalham com eles…) Depois desse ano que se passou muito rápido e que serviu pra que eu deixasse de lado muita coisa que dali em diante não ia ter nenhuma serventia, finalmente eu assumi o compromisso de vestir o branco. Deixei que lavassem minha cabeça, o que me fez aprender a abaixar ela para outras pessoas, até mesmo em momentos em que em outros tempos eu faria o contrário. Ao deixar que isso acontecesse, eu abri meu coração pra receber tudo aquilo que eu ainda não entendia por completo, mas confiava com todo meu amor.
Racionalizando tudo, minha entrega sempre foi parcial. A incorporação, o entendimento sobre o livre-arbítrio, tantas coisas difíceis e complicadas… Foram-se mais dois anos, talvez os mais difíceis da minha vida. Ao fim deles, tive que tomar decisões, passar por maus-bocados e pensar em talvez deixar tudo isso aí pra trás. Ah, como seria mais fácil. Mas, que bom que nessa vida, nada é fácil.
A sequencia de acontecimentos, que para outras pessoas que não fazem parte desse universo, passariam despercebidos, pra mim foram determinantes. A gente cai, e quem tá desse lado, sabe que a queda parece muito mais sofrida e a cobrança parece quase impossível de se cumprir. É dificil ter que praticar todos os dias o amor ao próximo, quando esse próximo é um pé no saco. É dificil controlar seus impulsos, seus sentimentos ruins e manter a vibe lá em cima. Disciplina, confiança e amor. São lindas palavras… na mesma proporção em que são extremamente complicadas.
Mas quem escolhe ser umbandista, escolhe assumir outra família. Família essa que está ao seu lado, formando uma corrente e segurando a sua mão, não deixando que seu irmão tombe. Assim como eles estão ali, nessa corrente de ferro e de aço, você também está lá, segurando a mão e a barra deles, todo mundo junto, buscando a mesma coisa e tendo a segurança necessária pra se manter forte durante todo o caminho. A minha vida poderia ter ficado mais fácil há alguns meses atrás, sim. Mas existem pessoas que estão na minha vida por motivos próprios. Outras apareceram e me seguraram na mão, ou embaixo do braço e me fizeram andar na linha reta de volta.
É por isso que a Umbanda é a minha religião. É por isso que eu uso a minha guia vermelha no pescoço com muito orgulho. É por isso que eu agradeço e acho que a melhor coisa que podia ter me acontecido é ser filha de Ogum, que quando precisa, me lembra que ele me deu espada e escudo pra sempre ficar em pé. Muitas daquelas dúvidas que entraram comigo dentro do terreiro, naquele dia há quatro anos, ainda estão aqui. Mas é o amor que eu tenho por cada uma delas que me mantém firme. E se tem uma coisa que não aconteceu quando eu saí daquela casa, lá trás, foi ilesa. Graças a Deus.
Agradeço todos os dias por ser hoje o que eu sou, pelo que a Umbanda fez de mim. Agradeço a todos os espíritos que estão do meu lado todo o sempre, mesmo quando eu os mando embora, com toda meu jeito ser humano de ser. (Além de estarem sempre segurando a barra quando a coisa aperta). Agradeço a todas as pessoas que já fizeram ou as que fazem parte hoje da família que eu escolhi. Agradeço especialmente para aquelas pessoas que disponibilizam todo seu tempo, dedicação, confiança e carinho à mim. Daqui em diante, pra sempre.
Usando as palavras do meu pai de santo, sou sim, soldado de umbanda, graças a Deus. Pode vir o que for, pode aparecer onde for, que a gente tá aqui, esperando pra mais um dia de luta. Saravá, meu pai.


